terça-feira, 22 de novembro de 2011

Administradores de Jaru: Sandoval de Araújo Dantas

Atualizado em 01/01/2026

Nascido aos 16 dias do mês de setembro de 1926, às 05 horas da manhã, numa pequena vila nas proximidades de Santarém, conhecida como Boa Vista do Rio Tapajós, estado do Pará, Sandoval de Araújo Dantas migrou para a Região Amazônica em meados dos anos 1930, juntamente com seus pais, Aprígio Dantas e Augusta de Araújo Dantas, imbuídos pela esperança de melhores dias a serem proporcionados pela extração do látex. 

Por longo período de vida, Sandoval encontra-se no anonimato, face a uma de suas características mais marcantes, a “de ouvir pacientemente e pouco falar”. De acordo com informações dadas por aqueles que com ele conviveram de maneira mais próxima, quando ele veio para a região [hoje abrangida pelo município de Machadinho D’ Oeste] foi trabalhar na fábrica São Gonsalo, do Seringal Machadinho, onde seu senso administrativo já era notado e aproveitado, tanto é, que assumiu logo a gerência do seringal, atuando ali por muitos anos. 

Nos primeiros meses de 1955, Sandoval conheceu uma jovem filha de um seringueiro, com quem passou a coabitar.  Seu relacionamento com a jovem Raimunda do Nascimento, que era natural do Amazonas, foi logo interrompido, o que aconteceu no mês de dezembro de 1958, durante as férias escolares da jovem Maria Guadalupe Alves, que estava em colégio interno no município de Humaitá, Amazonas. Nessa época, Sandoval conheceu e teve início a um romance, culminado pelo enlace matrimonial, o que aconteceu no dia 14 de maio de 1959, na Catedral de Porto Velho, em uma cerimônia administrada pelo Reverendo Ifigênio Passos, conforme Termo de Casamento nº 14, existente nos arquivos da Diocese.

Por motivos um tanto folclóricos, o relacionamento com a então senhora Maria Guadalupe não durou mais que trinta dias, ocorrendo então a separação do casal. Após o término do relacionamento, Sandoval continuou o seu antigo casamento com a Dona Raimunda Ferreira Nascimento, o qual não chegou a ser interrompido por completo. Não se sabe as causas, mas no início de 1960, Sandoval, Dona Raimunda e seus familiares deixaram o seringal Machadinho e mudaram-se para a empresa Jacy, nas proximidades de Jacy-Paraná, distrito de Porto Velho.

Em 1964, provavelmente no mês de junho, retornaram para a região de Jaru, juntamente com Dona Raimunda, sua mãe, uma cunhada e traziam agora um filho (João Ferreira Dantas), aliás, o único desse relacionamento. Ao regressar, foi trabalhar no Seringal Bom Jardim como guarda-livros, cargo de confiança do patrão, equivalente ao papel de Contador nas atuais empresas. Exerceu a função até 1966, ocasião em que deixou o Seringal Bom Jardim e subiu para o Seringal Setenta, de propriedade da família Cantanhêde, ali trabalhando até 1968. Nessa ocasião, já formava às margens do Rio Jaru uma pequena vila, que era conhecida como “Vila do Vale do Rio Jaru”, composta por barracões de seringais, dentre eles um do Seringal Setenta, que passou a ser gerenciado por Sandoval, função que exerceu de 1960 ao fim de 1970.

Juntamente com a nascente década de 1970, iniciava-se toda uma gama de acontecimentos envolvendo Sandoval, marcada pelo término do relacionamento com Dona Raimunda acontecido no fim de 1969, ocasião em que ela o abandonou para ir morar com um fiscal de obras de uma das companhias que trabalham na abertura da BR-29, atual 364. Até então, Sandoval mostrava-se exímio administrador leal e amigo, o que lhe deu a primazia no ramo comercial, no campo farmacêutico. Com o auxílio do senhor Aldemir Lima Cantanhêde instalou uma pequena farmácia, onde prestava o atendimento que lhe era possível, como prático aos seringueiros e colonos que começavam a migrar para a Região. Nessa época, Sandoval passou a coabitar com sua cunhada, Maria Luíza Ferreira, que já o acompanhava desde o Seringal Machadinho.

Conhecido carinhosamente como “Seu Sandu”, Sandoval tinha a religião Católica Apostólica Romana como crença, não possuía vícios prejudiciais ao convívio social, apesar de ser um consumidor inveterado da Coquinho (tipo de bebida envolvendo cachaça misturada com coco) e que era consumida em grande quantidade pelos pioneiros da Região Amazônica, que vinham do Nordeste do país com grandes garrafões de vidro. Mesmo durante seus momentos de embriaguez, Sandoval não mudava seu comportamento pacato, pelo contrário, tornava-se taciturno, liberando toda a sua melancolia nos acordes do violão, o qual era hábil tocador.

Bem-sucedido naquilo que se propunha a fazer não foi diferente no comércio. Torna-se difícil definir se Sandoval teve êxito maior no comércio, na complexa tarefa de medicar as doenças tropicais ou se no relacionamento amigo que mantinha com todos que lhe procuravam, povos das mais diferentes regiões e costumes. Sandoval tem sua história de vida descrita em poucas palavras, numa frase dita por uma pessoa que com ele conviveu por longo período de sua vida: “Sacrificou a si próprio e a seus bens para engrandecimento de um povo”.

Verdade inegável, diante do fato de ter sempre colocado à disposição dos menos sucedidos ou dos desprovidos de recursos momentaneamente todos os seus bens, não deixando nunca de alimentar aqueles que lhe procuravam, oferecer um espaço para que os transeuntes estendessem suas redes em sua casa e, principalmente, nunca negou a medicação para os enfermos, quer eles tivessem recursos, ou não. Ele tinha a mania de dormir em rede, hábito adquirido na longa permanência nos seringais. Seu sono era agitado, tanto é que dormia sempre balançando o pé direito. Nas noites, sempre tinha sonhos agitados, absurdos... Foi numa noite em setembro de 1975 que, após sonhar que havia um grupo de homens levando-o para um lugar desconhecido, converteu-se ao Evangelho, tornando-se membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

Comerciante bem-sucedido, bem quisto pela população de Jaru, Sandoval era a pessoa ideal para assumir a administração do recém-criado Distrito de Jaru, pertencente ao município de Ariquemes. Tal fato veio a acontecer no mês de março de 1978, quando o Conselho Comunitário de Jaru, representando legalmente a população, escolheu-o através do voto secreto para a função de Administrador Distrital, sendo nomeado para tal no mês de abril de 1978, através do Decreto nº 04 de 13 de abril de 1978, da Prefeitura de Ariquemes. Diante do novo desafio que lhe era apresentado, Sandoval direcionou toda a sua atenção a recursos, ao ponto de instalar a sede administrativa de Jaru em uma de suas propriedades, adquirir o imobiliário básico para funcionamento da administração e outros gastos, que se fizeram necessários.

Sandoval solicitando apoio
para o distrito de Jaru
(Fonte: Teófilo L. de Lima)
A atuação de Sandoval no cargo de administrador do Distrito de Jaru foi relativamente curta, pois durou apenas um ano e dezenove dias, mas foi o tempo suficiente para preparar toda a base administrativa para os seus sucessores. Durante a sua administração, os feitos de maior destaque foram a instalação dos Setores 05 e 06, a implantação do sistema de cadastro urbano, motivou a reorganização do Conselho Comunitário de Jaru, que muito fez para o desenvolvimento do distrito. Além disso, planejou o sistema de distribuição de lotes urbanos, diminuindo a burocracia existente no Incra, organizou o horário de funcionamento do comércio local, atendendo a reivindicação dos comerciários que até então vinham trabalhando nos feriados e domingos. Outra questão a importante é que ele reivindicou a instalação da repetidora da TV Globo, efetuou a transferência da administração urbana do Incra para a prefeitura de Ariquemes (Distrito de Jaru), além de determinar o Setor 04 como Área Industrial e muitas outras medidas.

Sua administração esteve voltada prioritariamente para a saúde e educação, sendo que na educação foi responsável pela implantação do ensino de 2º Grau (hoje equivalente ao ensino médio) na escola Plácido de Castro, até então única existente e pela vinda de profissionais de educação para a região, mediante campanha promovida juntamente com a Fundação Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Ao deixar a administração distrital em 20 de abril de 1979, mediante Decreto nº 027/PMA na mesma data, durante a gestão do prefeito Francisco Sales Duarte de Azevedo, Jaru contava com 740 construções, entre estabelecimentos comerciais e residências, 09 indústrias divididas entre a indústria madeireira e de beneficiamento de arroz e uma arrecadação média de CR$ 26.000,00 (vinte e seis mil cruzeiros). Conforme registros feitos pela Incra / Administração Distrital, a população na época era estimada em 26.000 habitantes, sendo que 3.500 eram eleitores.

Hospital Municipal Sandoval de Araújo Dantas
(Foto: Assessoria / Prefeitura de Jaru)
Sandoval foi sucedido na administração municipal pelo também comerciante Sebastião Mesquita. Ele continuou a trabalhar na firma S/A Dantas, que era de sua propriedade e que já apresentava fortes indícios de falência. Nos primeiros meses de 1980, Sandoval começou a definhar fisicamente, não podendo mais desenvolver qualquer atividade. Após sofrer um ataque cardíaco, ficou parcialmente paralisado e mudo, situação que foi se agravando até que às 22h45 do dia 23 de junho de 1986 veio a falecer o “pioneiro e primeiro administrador de Jaru” sofrendo fortes dores, falta de ar, suando frio, grande agitação e outros sintomas ocasionados pelo Edema Agudo de Pulmão e Infarto do Miocárdio.

À época de sua morte, Sandoval deixou cinco filhos menores de 14 anos, juntamente com a senhora Maria Luiza, que desde o dia 15 de maio de 1984 era pensionista da Prefeitura de Jaru, conforme Lei nº 008, de 15 de maio de 1984.

 

Fonte:

LIMA, Teófilo Lourenço de. Biografia de Sandoval de Araújo Dantas. Jaru, 03 de maio de 1988.

  


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