Atualizado em 01/01/2026
Nascido aos 16 dias do mês de setembro de 1926, às 05 horas da manhã, numa pequena vila nas proximidades de Santarém, conhecida como Boa Vista do Rio Tapajós, estado do Pará, Sandoval de Araújo Dantas migrou para a Região Amazônica em meados dos anos 1930, juntamente com seus pais, Aprígio Dantas e Augusta de Araújo Dantas, imbuídos pela esperança de melhores dias a serem proporcionados pela extração do látex.
Por longo
período de vida, Sandoval encontra-se no anonimato, face a uma de suas
características mais marcantes, a “de ouvir pacientemente e pouco falar”. De
acordo com informações dadas por aqueles que com ele conviveram de maneira mais
próxima, quando ele veio para a região [hoje abrangida pelo município de Machadinho
D’ Oeste] foi trabalhar na fábrica São Gonsalo, do Seringal Machadinho, onde
seu senso administrativo já era notado e aproveitado, tanto é, que assumiu logo
a gerência do seringal, atuando ali por muitos anos.
Nos primeiros meses de 1955, Sandoval conheceu uma jovem filha de um seringueiro, com quem passou a coabitar. Seu relacionamento com a jovem Raimunda do Nascimento, que era natural do Amazonas, foi logo interrompido, o que aconteceu no mês de dezembro de 1958, durante as férias escolares da jovem Maria Guadalupe Alves, que estava em colégio interno no município de Humaitá, Amazonas. Nessa época, Sandoval conheceu e teve início a um romance, culminado pelo enlace matrimonial, o que aconteceu no dia 14 de maio de 1959, na Catedral de Porto Velho, em uma cerimônia administrada pelo Reverendo Ifigênio Passos, conforme Termo de Casamento nº 14, existente nos arquivos da Diocese.
Por
motivos um tanto folclóricos, o relacionamento com a então senhora Maria
Guadalupe não durou mais que trinta dias, ocorrendo então a separação do casal.
Após o término do relacionamento, Sandoval continuou o seu antigo casamento com a Dona
Raimunda Ferreira Nascimento, o qual não chegou a ser interrompido por
completo. Não se sabe as causas, mas no início de 1960, Sandoval, Dona Raimunda
e seus familiares deixaram o seringal Machadinho e mudaram-se para a empresa
Jacy, nas proximidades de Jacy-Paraná, distrito de Porto Velho.
Em 1964, provavelmente no mês de junho, retornaram para a região de Jaru, juntamente com Dona Raimunda, sua mãe, uma cunhada e traziam agora um filho (João Ferreira Dantas), aliás, o único desse relacionamento. Ao regressar, foi trabalhar no Seringal Bom Jardim como guarda-livros, cargo de confiança do patrão, equivalente ao papel de Contador nas atuais empresas. Exerceu a função até 1966, ocasião em que deixou o Seringal Bom Jardim e subiu para o Seringal Setenta, de propriedade da família Cantanhêde, ali trabalhando até 1968. Nessa ocasião, já formava às margens do Rio Jaru uma pequena vila, que era conhecida como “Vila do Vale do Rio Jaru”, composta por barracões de seringais, dentre eles um do Seringal Setenta, que passou a ser gerenciado por Sandoval, função que exerceu de 1960 ao fim de 1970.
Juntamente
com a nascente década de 1970, iniciava-se toda uma gama de acontecimentos
envolvendo Sandoval, marcada pelo término do relacionamento com Dona Raimunda
acontecido no fim de 1969, ocasião em que ela o abandonou para ir morar com um
fiscal de obras de uma das companhias que trabalham na abertura da BR-29, atual
364. Até então, Sandoval mostrava-se exímio administrador leal e amigo, o que
lhe deu a primazia no ramo comercial, no campo farmacêutico. Com o auxílio do
senhor Aldemir Lima Cantanhêde instalou uma pequena farmácia, onde prestava o
atendimento que lhe era possível, como prático aos seringueiros e colonos que
começavam a migrar para a Região. Nessa época, Sandoval passou a coabitar com
sua cunhada, Maria Luíza Ferreira, que já o acompanhava desde o Seringal
Machadinho.
Conhecido
carinhosamente como “Seu Sandu”, Sandoval tinha a religião Católica Apostólica
Romana como crença, não possuía vícios prejudiciais ao convívio social, apesar
de ser um consumidor inveterado da Coquinho (tipo de bebida envolvendo cachaça
misturada com coco) e que era consumida em grande quantidade pelos pioneiros da
Região Amazônica, que vinham do Nordeste do país com grandes garrafões de
vidro. Mesmo durante seus momentos de embriaguez, Sandoval não mudava seu
comportamento pacato, pelo contrário, tornava-se taciturno, liberando toda a
sua melancolia nos acordes do violão, o qual era hábil tocador.
Bem-sucedido
naquilo que se propunha a fazer não foi diferente no comércio. Torna-se difícil
definir se Sandoval teve êxito maior no comércio, na complexa tarefa de medicar
as doenças tropicais ou se no relacionamento amigo que mantinha com todos que
lhe procuravam, povos das mais diferentes regiões e costumes. Sandoval tem sua
história de vida descrita em poucas palavras, numa frase dita por uma pessoa
que com ele conviveu por longo período de sua vida: “Sacrificou a si próprio e
a seus bens para engrandecimento de um povo”.
Verdade
inegável, diante do fato de ter sempre colocado à disposição dos menos
sucedidos ou dos desprovidos de recursos momentaneamente todos os seus bens,
não deixando nunca de alimentar aqueles que lhe procuravam, oferecer um espaço
para que os transeuntes estendessem suas redes em sua casa e, principalmente,
nunca negou a medicação para os enfermos, quer eles tivessem recursos, ou não.
Ele tinha a mania de dormir em rede, hábito adquirido na longa permanência nos
seringais. Seu sono era agitado, tanto é que dormia sempre balançando o pé
direito. Nas noites, sempre tinha sonhos agitados, absurdos... Foi numa noite
em setembro de 1975 que, após sonhar que havia um grupo de homens levando-o
para um lugar desconhecido, converteu-se ao Evangelho, tornando-se membro da
Igreja Evangélica Assembleia de Deus.
Comerciante
bem-sucedido, bem quisto pela população de Jaru, Sandoval era a pessoa ideal
para assumir a administração do recém-criado Distrito de Jaru, pertencente ao
município de Ariquemes. Tal fato veio a acontecer no mês de março de 1978,
quando o Conselho Comunitário de Jaru, representando legalmente a população,
escolheu-o através do voto secreto para a função de Administrador Distrital,
sendo nomeado para tal no mês de abril de 1978, através do Decreto nº 04 de 13
de abril de 1978, da Prefeitura de Ariquemes. Diante do novo desafio que lhe
era apresentado, Sandoval direcionou toda a sua atenção a recursos, ao ponto de
instalar a sede administrativa de Jaru em uma de suas propriedades, adquirir o imobiliário
básico para funcionamento da administração e outros gastos, que se fizeram
necessários.
A
atuação de Sandoval no cargo de administrador do Distrito de Jaru foi
relativamente curta, pois durou apenas um ano e dezenove dias, mas foi o tempo
suficiente para preparar toda a base administrativa para os seus sucessores. Durante a sua administração, os feitos de maior destaque foram
a instalação dos Setores 05 e 06, a implantação do sistema de cadastro urbano,
motivou a reorganização do Conselho Comunitário de Jaru, que muito fez para o
desenvolvimento do distrito. Além disso, planejou o sistema de distribuição de
lotes urbanos, diminuindo a burocracia existente no Incra, organizou o horário
de funcionamento do comércio local, atendendo a reivindicação dos comerciários
que até então vinham trabalhando nos feriados e domingos. Outra questão a
importante é que ele reivindicou a instalação da repetidora da TV Globo,
efetuou a transferência da administração urbana do Incra para a prefeitura de
Ariquemes (Distrito de Jaru), além de determinar o Setor 04 como Área
Industrial e muitas outras medidas.
Sandoval solicitando apoio
para o distrito de Jaru
(Fonte: Teófilo L. de Lima)
Sua
administração esteve voltada prioritariamente para a saúde e educação, sendo
que na educação foi responsável pela implantação do ensino de 2º Grau (hoje
equivalente ao ensino médio) na escola Plácido de Castro, até então única
existente e pela vinda de profissionais de educação para a região, mediante campanha
promovida juntamente com a Fundação Universidade Estadual de Maringá (UEM), no
Paraná. Ao deixar a administração distrital em 20 de abril de 1979, mediante
Decreto nº 027/PMA na mesma data, durante a gestão do prefeito Francisco Sales
Duarte de Azevedo, Jaru contava com 740 construções, entre
estabelecimentos comerciais e residências, 09 indústrias divididas entre a
indústria madeireira e de beneficiamento de arroz e uma arrecadação média de
CR$ 26.000,00 (vinte e seis mil cruzeiros). Conforme registros feitos pela
Incra / Administração Distrital, a população na época era estimada em 26.000
habitantes, sendo que 3.500 eram eleitores.
Sandoval
foi sucedido na administração municipal pelo também comerciante Sebastião
Mesquita. Ele continuou a trabalhar na firma S/A Dantas, que era de sua
propriedade e que já apresentava fortes indícios de falência. Nos primeiros
meses de 1980, Sandoval começou a definhar fisicamente, não podendo mais
desenvolver qualquer atividade. Após sofrer um ataque cardíaco, ficou
parcialmente paralisado e mudo, situação que foi se agravando até que às 22h45
do dia 23 de junho de 1986 veio a falecer o “pioneiro e primeiro administrador
de Jaru” sofrendo fortes dores, falta de ar, suando frio, grande agitação e
outros sintomas ocasionados pelo Edema Agudo de Pulmão e Infarto do Miocárdio.
Hospital Municipal Sandoval de Araújo Dantas
(Foto: Assessoria / Prefeitura de Jaru)
À época
de sua morte, Sandoval deixou cinco filhos menores de 14 anos, juntamente com a
senhora Maria Luiza, que desde o dia 15 de maio de 1984 era pensionista da
Prefeitura de Jaru, conforme Lei nº 008, de 15 de maio de 1984.
Fonte:
LIMA, Teófilo Lourenço de. Biografia de Sandoval de Araújo Dantas.
Jaru, 03 de maio de 1988.




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