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Vicente de Souza Ramos (Foto: Acervo Heliane Ramos) |
É
impossível abordar a respeito da literatura jaruense sem lembrar-se de um dos
pioneiros do município. Trata-se de Vicente de Souza Ramos, “o poeta
maranhense”. Autor de aproximadamente quinze obras, todas no formato de cordel,
Vicente Ramos (1935-2012), estudou até o Ensino Médio. Durante o
seu tempo de vida versou em rimas parte de sua trajetória pessoal e procurou
conscientizar as pessoas a respeito da preservação do meio ambiente, mesmo em
uma época em que os órgãos governamentais não possuíam nenhum tipo de análise
sobre um possível impacto ambiental.
A
chegada de Vicente Ramos ao Território Federal de Rondônia ocorreu em 1968 com
o objetivo de trabalhar nas jazidas de cassiterita para “enricar”. Contudo, com
fechamento de garimpos na região de Porto Velho, a solução foi se mudar para a
Vila de Rondônia, atualmente Ji-Paraná. A chegada ao espaço onde anos depois
seria o distrito de Jaru ocorreu no dia 25 de agosto de 1974. Depois de
trabalhar em garimpos, Vicentão, como era conhecido, exerceu a profissão de
barbeiro, por se tratar, segundo relatou, de um trabalho feito na sombra e em
um ambiente mais agradável.
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O Fechamento dos Garimpos e a Despedida dos dos Garimpeiros teve grande destaque por se tratar de um tema tão importante para a região (Foto: Acervo Heliane Ramos) |
A
identificação com a questão literária ocorreu muitos anos antes da chegada de
Vicente Ramos a Rondônia. Seu primeiro livro foi “A Inteligência do Lavrador”,
lançado quando ainda residia na região nordeste. Outras obras produzidas foram
Aventura do Nordestino, A Vida do Garimpeiro no Território de Rondônia, O
Massacre do Massangana, O Fechamento dos Garimpos e a Despedida dos Garimpeiros, O Clamor Nacional em Defesa da Amazônia, etc. A tragédia ocorrida no World Trade Center em 11 de setembro de 2001 nos
Estados Unidos também foi contada em versos pelo escritor ao lançar no dia 08
de março de 2003 na Casa da Cultura Ivan Marrocos, em Porto Velho, o livro “O
Terror que Veio Pelos Ares e Abalou o Mundo”. Em certo trecho da obra, Vicente
Ramos destaca: O terrorista é alguém / Que não tem religião / Não tem alma nem
espírito / Nem nervo nem coração / É um robô cuspindo fogo / Causando
destruição. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
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A tragédia de 11 de setembro nos Estados Unidos foi tema de uma das obras do escritor (Foto: Acervo Heliane Ramos) |
Na
década de 1970, enquanto o governo federal incentivava os novos imigrantes a
desmatarem a Amazônia como condição para permanecerem proprietários dos lotes
doados pelo Incra, Vicente Ramos já alertava para os problemas que poderiam
acontecer com o desmatamento desordenado. O lançamento do livro “O Clamor
Nacional em Defesa da Amazônia” em 13 de maio de 1979 na capital amazonense
destacou a importância da região. Em certo trecho da obra, o escritor traz a
seguinte abordagem: O colorido das árvores / Formam tão lindas paisagens /
Elegante aos nossos olhos / E abrigo para os selvagens / E havendo preservações
/ As futuras gerações / Gozarão de inúmeras vantagens. Anos depois, é possível
constatar que o conselho de Vicente Ramos não foi seguido e a luta pela
preservação do espaço geográfico amazônico continua a passos lentos.
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Grande conhecedor da Amazônia, Vicente Ramos abordou a defesa da da região em versos, sendo o primeiro livro lançado em Jaru (Foto: Acervo Heliane Ramos) |
Através
da presente obra, Vicente Ramos homenageia diversos lugares por onde passou,
entre eles Manaus, Ariquemes, Ji-Paraná, Cacoal e Jaru. Referindo-se à cidade
de Jaru, Ramos diz: Jaru de terras férteis / Fantástica tão pitoresca / Que só
a notícia nos diverte / Da produção gigantesca / Que todos seus habitantes /
Tange o progresso pra diante / Com mente sadia e fresca. O suposto aspecto
pitoresco é revisto poucas estrofes a seguir com o crescimento do lugar: Para
Jaru que tinha / Um aspecto pitoresco / Há 18 de agosto de 78 / Deu um passo
gigantesco / Marcando a evolução / Com a inauguração de uma agência do
Bradesco. Ainda a respeito de Jaru, utilizando a literatura de cordel, Vicente
Ramos registrou em versos: No início da implantação / Aqui da reforma agrária /
Os parceleiros tiveram / Uma situação precária / Foi um período tão sofrido /
Que o Jaru teve o apelido / De capital da malária.
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Vicente de Souza Ramos ao lado de um mogno de 1,80m - madeira de lei muito explorada na região (Fonte: Acervo do Autor) |
O
nome de Deus aparece com frequência nos versos em que escreveu em uma
demonstração de confiança e petição para que o Criador lhe dê forças na
produção literária. Ao escrever sobre si mesmo, Vicentão diz: Eu nasci com este
dom / E precisa de divulgação / Nunca frequentei escola / Pois nunca houve
ocasião / Só tenho o que Deus me deu / Mas, também dou o grito em defesa dessa
nação. Quando não estava viajando para conhecer pessoas e lugares, Vicente
Ramos observava, refletia e rimava. Certa vez ele fez a seguinte rima para um
amigo dele que era fumante: A pessoa que fuma cigarro / Consciente do mal que
ele faz / Que não ataca só o pulmão / Como os outros órgãos vitais / Está
fazendo uma burrice / Que o próprio burro não faz. Bem humorado pessoalmente e
nos versos que escrevia, Vicentão estava sempre pronto para enfrentar os
desafios da lida diária.
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Saudoso Vicente Ramos assinando Livro na Inauguração da Substação de Energia Elétrica em Jaru (Fonte: Acervo do Autor) |
Acreditar
que era possível ver um mundo melhor fez Vicente de Souza Ramos entrar também
na vida política. Sendo um dos fundadores do PMDB em Jaru, candidatou várias
vezes aos cargos de vereador, deputado e também disputou a primeira eleição
municipal realizada em Jaru no dia 15 de novembro de 1982 com o objetivo de ser
eleito prefeito do município. Vicentão levou as campanhas políticas que
participou de forma simples com seus versos em rima. Algumas pessoas chegavam a
duvidar do seu potencial, mas ele jamais desistiu de seus ideais em lutar pelo
que considerava justo. Não chegou a ser eleito, mas, sempre que possível
colocou o seu nome à disposição da população jaruense e estava engajado em
questões fundamentais da vida, o que o levou a disputar outros pleitos eleitorais. A última eleição em que disputou foi no ano de 2010, porém praticamente não fez campanha, uma vez que não há recursos declarados como recebidos ou gastos na Justiça Eleitoral. Como consequência, obteve apenas 36 votos.
Produzir
textos versos em um padrão onde se pode formar uma palavra na posição vertical,
o chamado acróstico, era outra especialidade de Vicentão. O escritor homenageou
profissionais de diversas áreas, entre eles, os professores, mesmo não sendo na
data em que tradicionalmente se parabeniza a classe docente. Ele também alertou
jovens, crianças e adultos sobre o perigo das drogas fazendo o uso do talento
nato que possuía.
Vicente
de Souza Ramos nasce em 21 de abril de 1935 em Aranoses (MA). Ele faleceu em 25 de agosto de 2012, mas deixou, além de inspiração,
um grande legado para a literatura jaruense.
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