sábado, 12 de setembro de 2026

Literatura Jaruense: Teófilo Lourenço de Lima

 

Teófilo Lourenço de Lima
(Foto: Acervo do Autor)

 Clique aqui e conheça a história da educação em Jaru 

Ao se referir à escrita da história de Jaru, um nome se destaca pelo pioneirismo dentro do assunto. Trata-se do mineiro Teófilo Lourenço de Lima, natural do vilarejo Fala Verdade, em Unaí (MG) e que chegou à vila de Jaru em agosto de 1976. As angústias geradas pelo novo, pela difícil mudança para as terras rondonienses, deram lugar ao encantamento com as belezas nativas de Rondônia, reveladas ao alvorecer do dia 10 de agosto, quando as belezas nativas e pouco vilipendiadas pela ação do homem se fizeram revelar. Nesta manhã, envolto às riquezas naturais que inebriavam o olhar, encontrou com seu pai, Sebastião Lourenço de Lima, que já residia em Jaru desde abril de 1971, vindo no afã colonizador iniciado nos anos 70 e, como milhares de outros brasileiros anônimos, buscava uma porção de terra onde pudessem gerar seu sustento e dos seus familiares. Se pai, após caminhar algumas horas na madrugada do dia 10 de agosto de 1976, chegara para guiar sua família, de quem por tantos anos estava separado, para a localidade que se fez seu lar até o ano de 1999, na Linha 603, Km 10, hoje a principal via de acesso da BR 364 aos municípios de Theobroma e Vale do Anari.

Seu contato com dura realidade dos anos 1970 em Jaru sempre fora mesclado pelo encantamento gerado das narrativas épicas de seu pai e por muitos seringueiros que frequentemente paravam na casa de seus pais, em busca de acolhida, quando de suas saídas para o então povoado de Vila de Jaru em busca de atendimento médico ou compra dos poucos produtos disponíveis para completar sua alimentação. Nessas ocasiões, parar para ouvir as histórias que contavam sobre os anos vividos na floresta isolados do mundo civilizado era um prazer indescritível, aguçando a mente ainda infantil que então enxergava muito mais a aventura que as dificuldades reais vividas por aqueles verdadeiros pioneiros. As dores por eles sentidas pelo isolamento na floresta davam lugar a fantasias, que acabaram por acompanhar sua trajetória literária e acadêmica, décadas mais tarde.

Professor Teófilo e outro senhor (possivelmente motorista
da Secretaria de Educação) observando a Escola Isolada São João Bosco
vista  pelos  fundos da instituição, durante suas atividades de restauração
 em  09 de novembro de 1986 (Foto: Acervo de Teófilo Lourenço de Lima)

Em fevereiro de 1981, ingressara no serviço público federal, com lotação na recém-criada Secretaria Municipal de Educação – SEMEC, onde iniciou sua trajetória profissional sempre voltada ao ensino. Percebendo a riqueza da oralidade pioneira, iniciou com recursos próprios e com equipamentos emprestados o registro das histórias de vida dos pioneiros, definindo, ainda que empiricamente, grupos que representavam épocas distintas da história regional, destacando os verdadeiros pioneiros dos seringais, soldados da borracha, servidores públicos do INCRA (e extintos IBC, ACAR, SUCAN). Junto às muitas horas de depoimentos gravados, procurava reunir um acervo documental que comprovasse os relatos muitas vezes romanceados pela narrativa colorida da epopeia colonizadora de Rondônia. Com o material coletado, sempre inspirado e encorajado pelo seu hoje falecido pai, iniciou a escrita do seu primeiro livro, “Do Monte Nebo a Jaru: Um passado a ser conhecido”, que traz na fotografia que ilustra sua capa a imagem de cacaieiros (colonos em caminhada em direção às futuras parcelas, onde seriam assentados conforme o programa de assentamento do Projeto Integrado de Colonização – PIC, do INCRA, em 1972).

Capa do livro “Do Monte Nebo a Jaru:
Um Passado a Ser Conhecido”,
lançado por Teófilo em 2001
Assim sendo, “Do Monte Nebo a Jaru: Um Passado a Ser Conhecido”, como retrata em seu prefácio a eminente historiadora Yêda Pinheiro Borzacov (Historiadora, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia e da Academia de Letras de Rondônia), expressa informações históricas, valorizando a oralidade de Rondônia, fazendo recrudescer o interesse pelo regionalismo. Revela que a área delimitada pelo Estado de Rondônia é uma região de ocupação antiga. Do ponto de vista geográfico, caracteriza-se pela presença de florestas equatoriais, situando-se na parte Ocidental da Amazônia Legal. A sua situação geopolítica explica o seu processamento ocupacional, através de diferentes levas de população, impulsionadas pelos interesses dos mercados externos, ressaltando que ainda na época pré-cabraliana, a região foi palco de inúmeras migrações indígenas, conforme atestam dados de pesquisadores clássicos, tais como Alfred Métraux e Curt Nimuendaju. 

Professor Teófilo foi um grande incentivador de eventos
 na Casa Cultural de Jaru. Na foto acima vemos um registro
 do lugar onde funcionou a Casa Cultural em
foto de 09 de novembro de 2014. Atualmente o local
abriga as instalações do Centro de Atenção Psicossocial, 
  o Caps. (Foto: Elias Gonçalves)

Esta obra divide-a em dois momentos históricos, sendo o primeiro o “colonialismo à formação dos seringais”, retratando a conquista do Madeira e seus tributários, as primeiras transações comerciais promovidas pelo “regatão” e o injusto sistema de “barracão”, o comércio mundial da borracha, o crescimento, decadência e renascimento dos seringais, caracterizado pelo histórico segundo ciclo da borracha, com um capítulo que retrata a confirmação da colonização da região, com a linha telegráfica ligando o hoje Estado de Rondônia ao restante do Brasil, o surgimento do considerado fundador de Jaru, Ricardo Lima Cantanhêde, com a criação do Seringal Monte Nebo (mais tarde Seringal 70), a exploração mineral intensificada nos 60 e a abertura da BR-29 (hoje 364). A segunda parte descreve com riqueza documental o declínio extrativista, a ocupação agrícola e os projetos oficiais de colonização capitaneados pelo INCRA. 

Professor Teófilo Lourenço (à direita)
na inauguração da Casa Cultural em Jaru

Nesse momento de seu livro, documenta ricamente a evolução político-administrativa do PIC-PeAR, da condição de sub-distrito de Ariquemes, sua elevação à condição de distrito, até a sua emancipação administrativa e realização das primeiras eleições municipais, com o pleito de 15 de novembro de 1982, onde os candidatos Leomar José Baratela (pelo PDS com 2.544 votos), Francisnaldo Bezerra (PDS, obtendo 2.541 votos), Sidney Rodrigues Guerra (PMDB, com 3.230 votos), José Alves do Nascimento (pelo PMDB, com 794 votos), Vicente de Souza Ramos (pelo PMDB, com 676 votos) e Anedino Carvalho (pelo PT, com 322 votos) disputaram à vaga a Prefeitura, sagrando-se vitorioso nas urnas o candidato Leomar José Baratela.

Teófilo Lourenço de Lima segue sua obra com rápidas abordagens sobre momentos políticos do município, pincelando sobre todas as administrações municipais até o pleito de 2000, quando alguns personagens da história de Jaru, através do voto livre, voltaram a ocupar cargos nos poderes legislativo e executivo municipal, dentre eles o primeiro prefeito eleito de sua história, Leomar José Baratela, agora na condição de vice-prefeito.

Teófilo e Elias (ambos escritores) em evento do livro
Vivendo Nossa História no dia 28 de abril de 2013
na escola Padre Adolfo Kolping em Jaru
(Foto: Acervo do Autor)

Teófilo encerra sua obra evocando a ação de novos pesquisadores e historiadores, ao exarar que os fatos narrados em “Do Monte Nebo a Jaru: um passado a ser conhecido”, evidenciem que “[...] não só Jaru, mas cada vila e município do Estado de Rondônia, possa ser vista e pensada como um momento (recente!) da história de Rondônia, e não como o início de nossa história, como muitos insistem e ver...” Depois desta obra, Teófilo Lourenço deu segmento à sua carreira pedagógica, bem como também à sua condição de pesquisador e escritor, tendo publicado vários trabalhos em eventos científicos, alguns em coautoria, orientado dezenas de trabalhos de conclusão de cursos de graduação e pós-graduação e publicado outros livros relacionados à prática da pesquisa, avaliação escolar e direitos fundamentais, este último como organizador. Destacam-se na sua produção literária, além dos artigos, resumos e orientações acadêmicas, os seguintes livros:

1.                      Do Monte Nebo a Jaru: um passado a ser conhecido (História regional)

2.                      Por que o aluno cola? Reflexões psicopedagógicas sobre a avaliação (Psicologia da aprendizagem)

3.                      Manual básico para elaboração de monografias (Técnicas de pesquisa e apresentação de trabalhos acadêmicos);

4.                      Metodologia de pesquisa científica: Orientações para elaboração e apresentação de trabalhos acadêmicos (teoria e prática).

5.                      Direitos Fundamentais em Rondônia (organizador)

Depois de residir em Ji-Paraná desde 1989, para onde se mudou em busca de uma formação acadêmica, consolidação de sua formação acadêmica e onde ainda desempenha suas atividades profissionais, em agosto de 2012 voltou a residir em Jaru, cidade de onde nunca se desvinculou, por considerar, por humilde adoção, sua cidade mãe. Porém, em agosto de 2016, voltou a morar em Ji-Paraná e desde então manteve sua residência na localidade, desempenhando atividades laborais em uma importante universidade local.

Clique nos nomes abaixo e veja a história literária de cada um deles:

Teófilo Lourenço de Lima

Vicente de Souza Ramos

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Literatura Jaruense: Vicente de Souza Ramos

Vicente de Souza Ramos
(Foto: Acervo Heliane Ramos)

 Clique aqui e conheça a história da educação em Jaru 

 É impossível abordar a respeito da literatura jaruense sem lembrar-se de um dos pioneiros do município. Trata-se de Vicente de Souza Ramos, “o poeta maranhense”. Autor de aproximadamente quinze obras, todas no formato de cordel, Vicente Ramos (1935-2012), estudou até ao Ensino Médio. Durante o seu tempo de vida versou em rimas parte de sua trajetória pessoal e procurou conscientizar as pessoas a respeito da preservação do meio ambiente, mesmo em uma época em que os órgãos governamentais não possuíam nenhum tipo de análise sobre um possível impacto ambiental.

 A chegada de Vicente Ramos ao Território Federal de Rondônia ocorreu em 1968 com o objetivo de trabalhar nas jazidas de cassiterita para “enricar”. Contudo, com fechamento de garimpos na região de Porto Velho, a solução foi se mudar para a Vila de Rondônia, atualmente Ji-Paraná. A chegada ao espaço onde anos depois seria o distrito de Jaru ocorreu no dia 25 de agosto de 1974. Depois de trabalhar em garimpos, Vicentão, como era conhecido, exerceu a profissão de barbeiro, por se tratar, segundo relatou, de um trabalho feito na sombra e em um ambiente mais agradável.

 O Fechamento dos Garimpos e a
Despedida dos dos  Garimpeiros
teve grande destaque por se
tratar de um tema tão importante
 para a região 
(Foto: Acervo Heliane Ramos)
A identificação com a questão literária ocorreu muitos anos antes da chegada de Vicente Ramos a Rondônia. Seu primeiro livro foi “A Inteligência do Lavrador”, lançado quando ainda residia na região nordeste. Outras obras produzidas foram Aventura do Nordestino, A Vida do Garimpeiro no Território de Rondônia, O Massacre do Massangana, O Fechamento dos Garimpos e a Despedida dos Garimpeiros, O Clamor Nacional em Defesa da Amazônia, etc. A tragédia ocorrida no World Trade Center em 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos também foi contada em versos pelo escritor ao lançar no dia 08 de março de 2003 na Casa da Cultura Ivan Marrocos, em Porto Velho, o livro “O Terror que Veio Pelos Ares e Abalou o Mundo”. Em certo trecho da obra, Vicente Ramos destaca: O terrorista é alguém / Que não tem religião / Não tem alma nem espírito / Nem nervo nem coração / É um robô cuspindo fogo / Causando destruição. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

A tragédia de 11 de setembro nos Estados
Unidos foi tema de uma das obras do
 escritor (Foto: Acervo Heliane Ramos)

Na década de 1970, enquanto o governo federal incentivava os novos imigrantes a desmatarem a Amazônia como condição para permanecerem proprietários dos lotes doados pelo Incra, Vicente Ramos já alertava para os problemas que poderiam acontecer com o desmatamento desordenado. O lançamento do livro “O Clamor Nacional em Defesa da Amazônia” em 13 de maio de 1979 na capital amazonense destacou a importância da região. Em certo trecho da obra, o escritor traz a seguinte abordagem: O colorido das árvores / Formam tão lindas paisagens / Elegante aos nossos olhos / E abrigo para os selvagens / E havendo preservações / As futuras gerações / Gozarão de inúmeras vantagens. Anos depois, é possível constatar que o conselho de Vicente Ramos não foi seguido e a luta pela preservação do espaço geográfico amazônico continua a passos lentos.

Grande conhecedor da Amazônia,
Vicente Ramos abordou a defesa da
da região em versos (Foto: Acervo Heliane Ramos)

Através da presente obra, Vicente Ramos homenageia diversos lugares por onde passou, entre eles Manaus, Ariquemes, Ji-Paraná, Cacoal e Jaru. Referindo-se à cidade de Jaru, Ramos diz: Jaru de terras férteis / Fantástica tão pitoresca / Que só a notícia nos diverte / Da produção gigantesca / Que todos seus habitantes / Tange o progresso pra diante / Com mente sadia e fresca. O suposto aspecto pitoresco é revisto poucas estrofes a seguir com o crescimento do lugar: Para Jaru que tinha / Um aspecto pitoresco / Há 18 de agosto de 78 / Deu um passo gigantesco / Marcando a evolução / Com a inauguração de uma agência do Bradesco. Ainda a respeito de Jaru, utilizando a literatura de cordel, Vicente Ramos registrou em versos: No início da implantação / Aqui da reforma agrária / Os parceleiros tiveram / Uma situação precária / Foi um período tão sofrido / Que o Jaru teve o apelido / De capital da malária.

Vicente de Souza Ramos ao lado de um mogno
 de 1,80m - madeira de lei muito explorada na região
(Fonte: Acervo do Autor)
O nome de Deus aparece com frequência nos versos em que escreveu em uma demonstração de confiança e petição para que o Criador lhe dê forças na produção literária. Ao escrever sobre si mesmo, Vicentão diz: Eu nasci com este dom / E precisa de divulgação / Nunca frequentei escola / Pois nunca houve ocasião / Só tenho o que Deus me deu / Mas, também dou o grito em defesa dessa nação. Quando não estava viajando para conhecer pessoas e lugares, Vicente Ramos observava, refletia e rimava. Certa vez ele fez a seguinte rima para um amigo dele que era fumante: A pessoa que fuma cigarro / Consciente do mal que ele faz / Que não ataca só o pulmão / Como os outros órgãos vitais / Está fazendo uma burrice / Que o próprio burro não faz. Bem humorado pessoalmente e nos versos que escrevia, Vicentão estava sempre pronto para enfrentar os desafios da lida diária.

Saudoso Vicente Ramos assinando o Livro Ata na  

inauguração da Subestação de energia elétrica 

em Jaru (Fonte: Acervo do Autor)
Acreditar que era possível ver um mundo melhor fez Vicente de Souza Ramos entrar também na vida política. Sendo um dos fundadores do PMDB em Jaru, candidatou várias vezes aos cargos de vereador, deputado e também disputou a primeira eleição municipal realizada em Jaru no dia 15 de novembro de 1982 com o objetivo de ser eleito prefeito do município. Vicentão levou as campanhas políticas que participou de forma simples com seus versos em rima. Algumas pessoas chegavam a duvidar do seu potencial, mas ele jamais desistiu de seus ideais em lutar pelo que considerava justo. Não chegou a ser eleito, mas, sempre que possível colocou o seu nome à disposição da população jaruense e estava engajado em questões fundamentais da vida, o que o levou a disputar outros pleitos eleitorais. A última eleição em que disputou foi no ano de 2010, porém praticamente não fez campanha, uma vez que não há recursos declarados como recebidos ou gastos na Justiça Eleitoral. Como consequência, obteve apenas 36 votos. 

Produzir textos versos em um padrão onde se pode formar uma palavra na posição vertical, o chamado acróstico, era outra especialidade de Vicentão. O escritor homenageou profissionais de diversas áreas, entre eles, os professores, mesmo não sendo na data em que tradicionalmente se parabeniza a classe docente. Ele também alertou jovens, crianças e adultos sobre o perigo das drogas fazendo o uso do talento nato que possuía.

Vicente de Souza Ramos nasceu em 21 de abril de 1935 em Araioses (MA). Ele  faleceu em 25 de agosto de 2012, mas deixou, além de inspiração, um grande legado para a literatura amazônica e nordestina.

Clique nos nomes abaixo e veja a história literária de cada um deles:

Teófilo Lourenço de Lima

Vicente de Souza Ramos